Tecnologia: O Profissional do Futuro e o Futuro do Profissional
(Publicado na Developers' Magazine em Dezembro de 2001)
O intelectual italiano Domenico de Masi tem feito muito sucesso defendendo o “ócio criativo”. A idéia básica é que estamos chegando a uma época, que alguns chamam de pós-industrial e outros de pós-moderna, em que a rígida separação entre trabalho, estudo e lazer faz cada vez menos sentido.
O que se verifica, na verdade, é uma mudança do conceito capitalista tradicional enunciado por Max Weber naquele que é considerado por muitos o livro mais importante do século XX: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Nele, Weber explica o sucesso do capitalismo liberal tal como o conhecemos nos países onde a cultura nacional é ou foi impregnada pelo Calvinismo a partir do século XVI. Uma das conseqüências, identificada por De Masi, é a tendência de centrarmos nossas vidas na atividade profissional. Se você é Analista de Sistemas e toca em uma banda de Rock, é provável que você se apresente como “João, Analista de Sistemas” e não como “João, baterista” (a menos que sua banda seja profissional, caso em quê você continuará se definindo em termos de sua profissão, c.q.d).
Isto está mudando. A época dos Yuppies Workaholics já era. Segundo De Masi, as empresas e países onde o lazer é mais valorizado, como Brasil, Espanha e Itália, têm agora a oportunidade histórica de criarem o futuro. Isso porque o “ócio produtivo” é definido como a capacidade de aumentar o tempo livre e usá-lo bem, além de fazer do trabalho, do estudo e do lazer um todo coerente.
As pessoas não podem ser forçadas a serem criativas das 8 da manhã às 5 da tarde. Simplesmente não funcionamos assim. Os horários flexíveis já são uma realidade em uma série de empresas. Pessoas com tempo livre bem aproveitado tendem a ser mais criativas e, portanto, a contribuir mais para suas empresas.
Por outro lado, o desemprego tecnológico, causado pelo contínuo aumento da produtividade das empresas através do uso de tecnologia, é uma realidade cada vez mais assustadora. Cada nova tecnologia gera um emprego de tipo novo para colocar dez profissionais no olho da rua. Isso é visível até mesmo em nossa área. Onde estão operadores, digitadores, schedullers? De Masi prega a radical redução das jornadas de trabalho como a única forma de evitar o desemprego em massa. Sem entrar na discussão sobre a viabilidade no curto prazo dessas idéias, é importante observarmos que a tendência é essa, sem dúvida. A parte boa, que devemos implementar já em nossas vidas, é a necessidade de tentarmos ocupar as horas do dia com esta mistura criativa de trabalho, lazer e estudo. Isto pode ser mais fácil ou mais difícil conforme a situação profissional atual de cada um, mas acredito ser um bom objetivo para colocarmos para nós mesmos.
Portanto, o profissional do futuro não pode deixar de levar em consideração estas idéias, que nos darão maior qualidade de vida. Daí a primeira conseqüência: olhar para nosso futuro profissional não apenas em termos da profissão em si.
Os caminhos profissionais
A questão é: o que você quer do seu futuro? O que você quer ser? Sem ter uma resposta clara para esta questão, todo o planejamento profissional pode ser inútil.
Vejo quatro caminhos que um profissional da área de desenvolvimento pode seguir.
O primeiro é o mais tradicional: trabalhar como funcionário em uma empresa. Este é o caminho normalmente escolhido pelas pessoas com maior aversão a riscos. A idéia de um salário fixo caindo pontualmente na conta todo mês é agradável para a maioria das pessoas. Não se deve, porém, esquecer que mesmo este caminho não é desprovido de pedras. Em tempos de crise e substituição de pessoas por tecnologia nenhum emprego é garantido como era antes. A boa notícia é que, ao menos em nossa área, paradoxalmente, há muito pouca automação, de modo que a profissão de desenvolvedor, com todas as mudanças que possam vir a acontecer, parece ter futuro, pelo menos por enquanto. Mesmo assim, manter a empregabilidade em alta será sempre prioridade. Voltaremos a falar nisso.
Outra questão a ser considerada é a importância que a Tecnologia da Informação tem para a empresa e seu segmento de mercado. Em setores onde nossa área é considerada de menor importância, tanto os salários quanto as possibilidades de crescimento profissional são mais limitadas.
Dentro deste caminho, é natural que se tenha como objetivo o crescimento na carreira. Mais adiante, comentaremos acerca do que o profissional deve fazer em cada passo de seu “plano de carreira”.
Mas continuemos com os caminhos possíveis. O segundo é o de ser empresário. A área de desenvolvimento é interessante por ser uma onde as barreiras de entrada são baixas. O capital necessário para se abrir uma empresa de desenvolvimento é pequeno. Um computador e um punhado de software, acompanhados de muita disposição para trabalhar, são suficientes. A má notícia é que, exatamente por ter baixas barreiras de entrada, a concorrência tende a ser grande e, com raras exceções, manter os lucros baixos. Nesta área, a flexibilidade e capacidade de leitura das necessidades do mercado são fundamentais, por ser um setor extremamente dinâmico.
Tomemos o exemplo das ponto.com. Muita gente entrou e faliu. Um ou outro ficou milionário. E uns quantos conseguem sobreviver, mas sem lucros astronômicos. O suficiente para viver sendo o próprio patrão, o que para muita gente já é um grande lucro.
Se você pensa em ser um empresário desses, alguns cuidados devem ser tomados. O primeiro nem precisa ser comentado: o risco é, certamente, maior do que ser empregado. Mas quero chamar atenção para algo que com freqüência as pessoas esquecem. Para ser empresário, você precisa ser um ótimo administrador, não um ótimo programador. Vemos com freqüência desenvolvedores geniais abrirem empresas confiando apenas no seu taco tecnológico, e então cometerem erros primários de administração que põem tudo a perder em poucos meses. Se você quer abrir uma empresa, arrume um administrador como sócio ou ao menos estude o básico de marketing, finanças e microeconomia. Se você pretende empregar gente, vai ter que aprender administração de recursos humanos também. Faça um MBA ou, se a grana estiver curta, ao menos os cursos oferecidos pelo SEBRAE. Conceitos como custo e receita marginal, elasticidade-preço da demanda e estrutura competitiva do mercado são fundamentais até na hora de definir o preço de seu produto. Não caia nessa conversa furada de nova economia. Olhe para o gráfico do NASDAQ. Não existe nova economia, a economia que existe é a de sempre, a velha, aquela de Adam Smith, Ricardo, Marx, Keynes e Hayek.
Você precisará também destes conceitos de administração se quiser seguir o terceiro caminho: ser autônomo. Neste caso, precisará também investir em seu marketing pessoal e na sua rede de contatos, que atende pelo horrível nome denetworking. Neste caso, especialização é fundamental. É difícil sobreviver como autônomo se você não é conhecido pelo mercado como expert em alguma coisa específica. Mas não basta ser conhecido como expert, você precisa sê-lo, caso contrário sua fama irá rapidamente para o ralo.
O autônomo é, na verdade, um meio-termo entre o empregado e o empresário. Tanto os níveis de risco como de retorno estão no meio. Você precisará investir mais em sua atualização profissional, e, dependendo do seu bolso, terá de faze-lo com muito auto-estudo. O caminho de consultor é mais apropriado para autodidatas. Se você é daqueles que não consegue estudar sozinho, é improvável que sobreviva muito tempo como consultor.
O consultor não recebe salário fixo, de modo que deve ser capaz de fazer provisões nos meses rentáveis para aqueles de vacas magras. Ao contrário do empresário, porém, sua estrutura de custos normalmente se resume a seu sustento pessoal e familiar. Alguns de nós técnicos têm grande dificuldade para lidar com pessoas, de modo que ser empresário e ter que administrar funcionários pode estar além de seu limite de competência. Neste caso, o caminho do consultor autônomo é mais indicado.
O quarto caminho possível é o do magistério, que pode ser assumido em tempo integral ou como complemento a qualquer dos outros caminhos. As possibilidades vão desde instrutor autônomo, que presta serviços para empresas de treinamento, até ser professor universitário, em graduação ou pós. É um caminho interessante para quem tem facilidade de comunicação e gosta de ensinar, o que não é o caso de todo mundo. A remuneração nesta área varia muito, de modo que é difícil compará-la com as demais possibilidades. Aqui também, como no caso do consultor, ser especialista em algum assunto aumenta suas chances de boas ofertas de trabalho.
O empresário, o consultor e o professor, ao contrário do funcionário, têm maior liberdade em termos de horário. Para pessoas que gostam desta flexibilidade são caminhos bastante atraentes, que permitem maior dedicação ao lazer e estudo. Em termos de qualidade de vida, muitas pessoas estão dispostas a escolher um destes caminhos mesmo se for para ganhar menos, mostrando o valor que dão a seu tempo livre. Se você está infeliz e acha que trabalha demais, considere uma destas alternativas. Um salário maravilhoso nem sempre paga a infelicidade de não ter tempo para você e sua família, ou de estar fazendo o que não gosta.
As possibilidades de carreira discutidas estão resumidas na tabela anexa. São minhas opiniões pessoais e não refletem a visão de todo mundo. De qualquer modo, como alguém que já viveu todas essas situações, acho que minha opinião pode ser de utilidade para algumas pessoas pelo menos.
| Rentabilidade | Risco | Qualidade de Vida |
Empregado em pequena empresa - desenvolvimento | B | M | B-M |
Empregado em pequena empresa - gerência | M | A | M |
Empregado em grande empresa - desenvolvimento | M | B | B-M |
Empregado em grande empresa - gerência | A | M-A | M-A |
Empresário
| ? | A | B-M-A |
Consultor | M | M | A |
Professor | M-A | B | M-A |
Legenda: A – Alto(a) M – Médio(a) B – Baixo(a)
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O que estudar?
Todo estudo de competência passa por três aspectos: conhecimentos, habilidades e atitudes. “Conhecimentos” diz respeito ao que você sabe. “Habilidades”, ao que você faz. E “atitudes” à forma como você se coloca diante de sua profissão, sua empresa e sua vida. Habilidades e atitudes são assuntos complexos que fogem ao escopo deste artigo. Falemos portanto algo sobre conhecimentos.
Em cada estágio de sua carreira, há algo que você precisa aprender para passar para o estágio seguinte. A partir de um plano de carreira hipotético, sugerimos os conhecimentos necessários para dar este passo. Observe que estes conhecimentos estão listados de acordo com um plano de carreira comum nas empresas. Se o seu caminho não é o de funcionário, você terá que adapta-los á sua situação específica.
Desenvolvedor Júnior: se você quer ser desenvolvedor júnior, é porque está entrando na área. Aqui, o conhecimento específico de ferramentas de desenvolvimento é o fundamental. Escolha uma ou duas ferramentas de grande demanda e estude-as a fundo. Visual Basic, Delphi / Kylix e Java são boas sugestões. Procure iniciar a carreira já desenvolvendo sem vícios que depois são difíceis de tirar. Um bom começo é estudar o PSP (Personal Software Process), descrito em artigos em edições passadas na DevMag.
Desenvolvedor Pleno: para chegar a pleno, será exigido de você o conhecimento de técnicas de modelagem. O estudo de assuntos como Análise Essencial e Análise e Projeto Orientados a Objetos, UML e Arquitetura de sistemas será muito útil.
Desenvolvedor Sênior: deste profissional espera-se grande experiência em desenvolvimento (habilidade), para que seja capaz de conduzir projetos com pequenas equipes. O papel de líder de projeto será freqüentemente atribuído ao Sênior. É portanto necessário o conhecimento básico de gerenciamento de projetos, sendo útil o estudo do TSP (Team Software Process).
Um parêntese sobre certificações: os programas de certificação que muitas empresas oferecem, como Microsoft, Oracle e 3COM devem ser avaliados com cuidado. Faça uma análise de custo-benefício. Ter um certificado destes terá impacto real no meu salário? Em quanto tempo recupero o investimento? Fazer por fazer é bobagem. Alguns desse programas são caríssimos. Assim, faça uma análise objetiva das possibilidades de aumento salarial como decorrência deles. Não os faça apenas por fazer.
Gerente de Projetos: para muitas pessoas, este é o ponto de virada na carreira. Como o nome diz, as habilidades e conhecimentos gerenciais passam a ser mais importantes que a tecnologia. Saber gerenciar pessoas e projetos é fundamental. O domínio de modelos de qualidade como o CMM é necessário. Um erro freqüente cometido por empresas e pessoas acontece quando alguém sem as características pessoais para ser gerente é promovido para o posto. Perde-se um ótimo desenvolvedor para se obter um péssimo gerente. Não querer ou saber ser gerente não é vergonha nenhuma. Se este é o seu caso, talvez seja a hora de rever o seu futuro e adotar um dos caminhos alternativos citados no artigo. Em algumas empresas mais sintonizadas com os tempos modernos existe o conceito da “Carreira em Y”, em que uma pessoa com essas características pode crescer e ter salários e benefícios correspondentes aos de gerentes, mas continuando a trabalhar como um técnico especialista. Isto permite continuar a crescer profissionalmente como técnico, sem ter que abandonar a empresa. Se sua empresa não é assim, e você é sênior mas não quer ser gerente, ligue seu alerta vermelho! Procure outra empresa ou outro caminho. Caso contrário, sua qualidade de vida despencará, sua produtividade também e seu risco de ser demitido aumentará enormemente.
Gerente de Desenvolvimento: do posto de gerente de projeto para cima, seus conhecimentos, habilidades e atitudes gerenciais contarão cada vez mais, em detrimento de seu conhecimento técnico. Embora você deva ficar antenado nas novidades tecnológicas, não perca seu tempo com detalhes (a não ser que seja seu hobby). Esta é a hora para você se convencer de que você se tornou um administrador de empresas, e não é mais um desenvolvedor. Um MBA, uma pós-graduação em administração e muitas leituras nesta linha passam a ser fundamentais. Será exigido de você que conheça e entenda a estratégia gerencial de sua empresa, e você terá que contribuir mostrando à diretoria como é que a tecnologia pode alinhar-se a esta estratégia e alavancá-la. Em setores da economia onde a tecnologia de informação é estratégica para a competitividade da empresa (ou seja, quase todos), um gerente de sistemas que diz que “desse negócio de balanço, retorno do investimento, custo marginal eu não entendo nada; meu negócio é tecnologia” está com os dias contados.
Conclusão
Qualidade de Vida deve ser nossa primeira prioridade. Encontrar o nosso espaço em nossa área é portanto fundamental. Temos que escolher um caminho profissional que nos dê a combinação ideal de renda, prazer de trabalhar e tempo para o estudo e o lazer individual e familiar. Encontrar este balanço pode não ser fácil mas temos que estar atentos a todas as possibilidades. E, principalmente, não nos matarmos de trabalhar no que não gostamos apenas por dinheiro. O tempo passa, você fica velho e pode chegar o momento em que você olhe para sua montanha de dinheiro no banco e descubra que não tem mais tempo, saúde e família com quem gastá-lo.
Artigo publicado na revista Developer's Magazine em Dezembro de 2001.
Copyright © 2001-2006 Atila Belloquim.
Este artigo pode ser reproduzido no todo ou em parte, desde que citada a fonte e acompanhado do endereço eletrônico www.atilabelloquim.com.br.
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